Inteligência Artificial: Já é possível prever o suicídio?

Segundo a Sociedade Portuguesa de Suicidiologia, em 2011 existiram cerca de 9,6 suicídios por cada 100.000 habitantes em Portugal. Números preocupantes, face ao crescimento desta taxa desde 1996 (onde rondava cerca de 2 suicídios a cada 100.000 habitantes). A prevenção do suicídio é fundamental e é uma temática em constante debate em simpósios e eventos.

Prevenção do suicídio com inteligência artificial

Quando ocorre o suicídio, existe uma pergunta que perdura na família e nos amigos: “o que poderia eu ter feito?”. Os investigadores querem antecipar essa pergunta para no futuro ser possível perguntar “o que eu posso fazer?” em tempo útil, recorrendo à Inteligência Artificial.

Foi com base nestas premissas que, Colin Walsh, investigador da Vanderbilt University Medical Center, e os seus colegas criaram algoritmos de aprendizagem mecânica, com uma impressionante eficácia, que prevê a probabilidade de um indivíduo se suicidar. Os resultados têm uma taxa de acerto a rondar os 80~90%, no que diz respeito à previsão de pessoas com intenção de suicídio numa janela temporal de dois anos. Números impressionantes.

Fonte de dados para a previsão do suicídio

Os dados utilizados pelo algoritmo são variados e provêm das admissões hospitalares. Dados como a idade, sexo, plano terapêuticos, exames realizados previamente, códigos postais, entre outros, foram utilizados para realizar os testes, provenientes de mais de 5.000 pacientes da Vanderbilt University Medical Center que teriam sido anteriormente admitidos com feridas auto-infligidas ou ideias de suicídio.

Este conjunto de casos clínicos foram utilizados para alimentar a “máquina”, para que esta pudesse identificar os pacientes mais propensos a perpetuar o suicídio. Os investigadores desenvolveram também algoritmos para prever o suicídio num grupo de pacientes superior a 12.000, selecionados aleatoriamente, sem histórico de doenças mentais ou tentativas de suicídios – a “máquina” provou ser mais exata na previsão do risco de suicídio nesta amostra maior de pacientes.

Estudos em fases iniciais

Este estudo de Colin está ainda numa fase inicial. O seu artigo científico publicado em Maio representa apenas um primeiro estágio do seu trabalho. Está, neste momento, com a sua equipa de investigadores, a determinar se o seu algoritmo se provará eficaz com dados totalmente diferentes de outro hospital. O investigador ambiciona ter um ambiente de teste a intervir em casos reais em apenas dois anos.

“É um conjunto de fatores de risco que nos dizem as respostas” diz Colin, quando confrontado com a complexidade da mente humana e abordado pelos cépticos que mostram dificuldade em entender como funcionam estas previsões. É a combinação de fatores de risco que potenciam os algoritmos, um fator de risco apenas não é suficiente para determinar os riscos. Colin chega a dar um exemplo prático: a ingestão de meletonina não está associada ao suicídio, mas está associada aos maus padrões de sono – os padrões de sono erráticos, por si, já podem ser associados a um risco de suicídio – é por isto mesmo que é necessário estudar a multiplicidade dos fatores de risco envolvidos para aumentar a certeza dos resultados.

Problemas éticos associados

As tecnologias de informação que intervêm na medicina podem trazer problemas éticos acarretados. “Existe sempre um risco de consequências imprevistas”, diz Colin. “Temos as melhores intenções e construímos este sistema a pensar nas pessoas, mas podem existir problemas associados no decorrer da investigação”.

Surgem questões éticas particulares nesta abordagem à medicina: terá o clínico de mudar a sua abordagem clínica e acarretar ordens de “uma máquina”? Uma pergunta cuja resposta nos espera no futuro. Para já, podemos contar com os esforços de Colin e da sua equipa na deteção do risco do suicídio, um gigante passo para a saúde pública internacional.

Poderá aceder ao artigo de Colin Walsh aqui.

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